terça-feira, 25 de março de 2008

não tenho culpa, puxaram por mim... ;)

Nada fácil, responder a este desafio da minha deliciosa Su.
Aliás, sinceramente, será que alguma das propostas da Su é fácil? Será que desta miúda incrível se pode esperar alguma coisa simples? As almas simples são o oposto dela, pensadora até mais não, sábia como tudo, sensata como mais ninguém…realmente, simples nunca poderia ser qualquer proposta, qualquer ideia, porque pura e simplesmente, a Su nos põe a pensar, a reflectir, a voar, dentro de nós próprios. E tudo isso é bastante complexo, pelo menos quando é encarado da mesma forma. Implica uma viagem interior e é a essa viagem interior que a Su convida, com as suas palavras, com o seu carinho, com a sua paciência e com a sua sabedoria.

Su…tu és incrível, gosto muito de ti!!

Pois, lá estou eu mais uma vez a deixar correr o novelo…
Mas então é assim, este desafio leva-me a uma boa reflexão sobre o passado e sobre a música que se liga a ele. A música tem um poder incrível, demasiado forte, até!
Acabamos sempre por a associar a momentos. Os bons são fortíssimos e cada vez que ouvimos um som que nos liga a ele voamos bem alto, para junto das nossas memórias mais agradáveis.
Os menos bons, ou mesmo muito menos bons, levam-nos a querer fugir…e a safada da música esta lá, não deixa! Cada vez que um acorde toca, volta tudo…
Mas esses momentos tornam-se menos maus, tornam-se quase bons, quando finalmente os conseguimos sublimar. E aí, ouvir a melodia pode ser (apenas) um doce sofrimento, porque nos lembra um passado difícil de ultrapassar, mesmo quando já ultrapassado, mas que ao mesmo tempo nos deu algo de muito bom.
Ainda há músicas que não consigo ouvir hoje, simplesmente não consigo!! São demasiado dolorosas porque reavivem feridas, feridas que curam mas deixam cicatrizes…

Tentei escolher os meus seis temas, que de alguma forma definem momentos importantes na minha vida. Momentos agradáveis. Mais que momentos, fases da minha vida. Fases da minha infância, da minha adolescência. Pouco valem na minha fase adulta. Essas músicas já fazem parte de uma playlist fantástica que foi criada num chá a três ;)

Terrivelmente difícil escolher apenas seis músicas. Diria mesmo quase impossível.
Mas pronto, está feito e da melhor forma possível.
Provavelmente esqueci-me de uma ou outra deveras importantíssimas, mas a vida é assim mesmo.
Estas são as que marcaram algumas das fases da minha vida, das quais eu me lembro perfeitamente, repletas de momentos que não me saem da memória e de sabores que ainda sinto na boca.

A primeira música que me lembro de ouvir, sempre associada à minha Mãe, é do Little Richard, Tutti Frutti.

Mas podia ser qualquer uma do Elvis ou dos Platters, principalmente Only You… Nós, eu, os meus irmãos e a minha Mãe dançávamos imenso em casa. Exteriorizávamos toda a alegria de viver. Dançávamos todos juntos, saltávamos e pulávamos, passávamos por baixo das pernas uns dos outros em passos de dança dos anos 60, na altura eu que se passava o cabelo a ferro e punha sumo de limão nos olhos (contava a minha Mãe) para eles ficarem brilhantes. Na altura em que uma menina só ia a “bailes” acompanhada dos irmãos mais velhos e em que nenhuma menina de boas famílias ia estudar para Belas Artes porque era, pura e simplesmente, uma escola de anarquistas e de doidos. Esta é uma das minhas primeiras memórias musicais. E não há vez em que ouça qualquer uma destas músicas e não me lembre de voar no meio da sala ao som de um ritmo alucinante. Muito boooooom!!

A seguir aparece uma música que me lembra os meus primos mais velhos, os tempos em que jogávamos nas festas de anos aos quilos de merda, sim, era mesmo assim lool. As festas eram em casa, “antigamente”, com os primos, os tios, os avós de todos, os bolos feitos na cozinha à última hora, decorados com chantilly, pepitas de chocolate, massa pão, desenhados com a própria massa do bolo, esculpidos. Incrível!!! Ainda me lembro de uma bota rota de chocolate cheia de ratinhos que a minha Avó me fez. A cozinha em pantanas. Mas os sorrisos, as gargalhadas…ohhhh!!! é um som que não se esquece nunca e que vale por mil. O salame de chocolate, feito pelas pequenitas mãos dos da casa, que volta e meia metiam um valente bocado à boca. As bolinhas de laranja postas em forminhas de papel, os cocos, o Tang de laranja… definitivamente, perco-me nestas memórias de infância.
Pois dizia eu que esta música me faz lembrar os meus primos mais velhos, com mais três ou cinco anos que eu. Eles ouviam, eu ouvia por tabela (verdade seja dita, se queria estar com eles tinha mesmo de ouvir. Aliás, para ser grande como eles e poder ser olhada com o mínimo de respeito…bem…a musica deles é que é a maior!!! Lol) tinha acho que dez anos e já sabia a letra de cor. Adorava. Porque adorava a musica, porque adorava os cantores (eram mesmo giros à brava lol) e porque assim partilhava os gostos de quem mandava na geração ;). Uiii… ainda não disse qual é a música… Simon & Garfunkle, claro…Sound of Silence.

The Boxer também é uma forte hipótese, ou Bridge Over Troubled Water, mas só pode ser mesmo uma e mesmo assim… Pois, dias de festa, dias de jogos de ping pong, de doces e de praia e muitos, muitos, jogos de cartas… ainda não falei do clube que criamos, pois não? O Clube dos Super Coelhos, com direito a torneios de ping pong, jornal e festas de Carnaval… acho que vai ficar para outra altura, este testamento cresce a olhos vistos…

A terceira música, também associada a milhares de risos, mas estes mais adolescentes… o Zorba!!

A minha casa sempre esteve cheia de gente, parecia que tinha mel. Ora eram os primos que iam para lá brincar, aprender a andar de bicla, ou simplesmente lanchar (tipo…quase todos os dias…) ora eram depois os amigos, os meus, os dos meus irmãos, os da minha Mãe… a borga que nós fazíamos pela noite dentro. Chouriço assado, tapas, sangria, música nas alturas, mas quando digo nas alturas era mesmo nas alturas!!! Dezoito, dezanove aninhos, eu, a minha Mãe, os meus amigos e os dela…todos juntos, a dançar o Zorba!! Inacreditável. Claro, quem era o motor??? A mamilly, óbvio. Tinha mel, mas tanto mel… saudades………………………………

Fase contestatária… e sim, eu fui valente nessa fase. De preto, echarpes rasgadas, calças escritas, guarda-chuva nem vê-lo, venda de trapos e quinquilharia na Vandoma, mais pela atitude que pelos trocos, muito underground, também um tanto hippie… bem a fase da prateleira, certo? (pensando bem...será que já saí???). A fase em que comecei a desenvolver o meu gosto musical, a conhecer a minha música, a sonhar sonhos e a viver alguns pesadelos também. Aprendi a tocar guitarra, tirei más notas, chumbei um ano por pura gazetice, bem…prateleira mesmo e tadinhos dos que me aturavam. A música, pois… The End, dos The Doors.

Podiam ser milhentas deles e de outros ainda, mas bem espremido mesmo acho que esta foi a que mais me marcou.

Homem do Leme, Xutos e Pontapés.

As primeiras saídas à noite, os primeiros concertos. O primeiro sabor de independência, de ser “grande”. Esta música representa uma conquista, de espaço, de existência, de atitude. Novamente a adolescência, provavelmente uma fase anterior à da música que falei antes, a do Zorba. Provavelmente entre o Zorba e os Doors, mas não me apetece trocar o texto que este novelo já está uma salsichada tal como está ;) Aliás, pensando melhor, primeiro esta, depois os Doors e só depois o Zorba, numa fase de reconciliação com a geração anterior. A música portuguesa, Dunas, os Ban, bem…tantas, mas tantas… lembro-me de ver os GNR com apenas mais cerca de cem pessoas. Incrível, onde isto aconteceria hoje…

Os meus grupos preferidas da minha fase adulta já estão realmente numa playlist em que me deu um gozo enorme tomar parte. Mas ponho-os aqui, num parêntesis, porque simplesmente não consigo deixar de as amar com todas as forças… Portishead (e sim, su…. estou lá!!!!) e Tindersticks. Tirando esses, todos aqueles que fazem parte do perfil deste cantinho…e provavelmente muitos que me falta pôr, por falta de lembrança ou por simples ignorância da sua existência.

Assim, vou dizer qual foi a última música que escolhi… É uma música que me faz levantar voo, cada vez que a ouço, que faz vibrar todos os cantinhos do meu ser, que muda completamente o meu estado de espírito. É uma música que tem esse poder em mim…e tem, claro, um violoncelo!!!!! ;)
Falo de Bach, esse génio!! Falo de cordas friccionadas, que vibram no espaço, falo da suite nº 1 para cello, tocada primorosamente por Rostropovich.

(Infelizmente o embeb do vídeo de Rostropovich não estava disponível para ser copiado, embora possa ser visto no youtube. Este é de Yo Yo Ma, seu discípulo)
Tocada mil vezes por mil violoncelistas diferentes, Guilhermina Suggia, Pablo Casals, Yo Yo Ma… mas Rostropovich, simplesmente divinal. A melodia, a harmonia, os acordes, o violoncelo… É o céu, é o céu sem limites…

Ufaaaaa… isto não foi nada fácil, nem rápido, diga-se de passagem.
Simplesmente fantástico, este exercício de memória, de associação da música à existência. Inseparáveis… para o melhor e para o menos melhor… Mas sempre, sempre, presente!!!

Querida Su, acho que mais uma vez enrolei os novelos todos e desviei completamente da meada traçada… não consigo, não dá para evitar… Gostava de saber escrever poemas bonitos, sobre coisas bonitas… assim não seria sempre sobre mim… Mas olha, também gosto assim, é assim que eu sou e gosto de mim. Tagarela até mais não, a pular de assunto em assunto, cheia de cerejas na taça e quando dou por ela, ainda vou buscar mais à cerejeira ;))


Beijos, montes de beijos…com sabor a… claves e semínimas não…a cerejas bem madurinhas ;)


Ahhhh… só mais uma coisinha, violoncelo… adoro a forma como é interpretado em composições mais modernas, em músicas dos mais variados estilos, formas e feitios. Adoro ouvi-lo no meio de uma guitarra acústica, de uma bateria, de uma guitarra eléctrica. Adoro a forma como usa a clave de fá, a sensualidade das cordas friccionadas, das notas mais graves, a sensualidade do Piazzolla, hummmm., simplesmente adoro violoncelo!!!



17 comentários:

Porcelain disse...

Uau... uma vida... que inveja... também quero uma... um passado... esse não vale a pena querer, porque só o tempo tratará de me arranjar um... tenho de ver se trabalho bem para criar um passado... boa?

Bjoka das gigantescas

muguet disse...

procura o sorriso da criança que um dia foste, porque ai vais descobrir que essa criança ainda sorri em ti...que tu´ÉS essa criança que sorri... e nesse dia vais descobrir quem foste e quem serás... é o dia em que te encontras e tornas o teu passado na tua vida. em que encontras os novelos perdidos e com eles teces o mais doce futuro.

beijo enorme minha querida, sabor a... futuro ;)

Susana Júlio disse...

Que te diga?!
Gosto de cerejas, gosto de as puxar e deixá-las correr, assim faço às palavras, gosto de ouvir, de escutar e de ler...gosto de vos puxar, de vos completar com o meu silêncio escondido, com a minha alma em forma de asas, sejam brancas ou negras, acolhendo na sua amplitude e puxando, puxando...gosto de voar e fazer voar, enrolo e liberto, complico demais até...
...portanto, sim gosto de cerejas e de novo de palavras, ao sabor deste magnífico Bach (que idolatro desde nova, assim como um Requiem de um Mozart, ou um Debussy...ou um Bolero de Ravel) e ao sabor gritante deste Zorba que sempre amei e me recordou também, de um modo mais contido, a alma enérgica da minha mãe (apesar de ela estar mais virada para uns sons mais metaleiros ou asiáticos...tem dias!) e Piazzolla, amiga, o que foste buscar...AMO Piazzolla...tangos lindos lindos...alguns tocados pelos Gotan Project (conheces de certeza, não?!)...Adoro violinos e violoncelos...Yo Yo Ma, sim...Casals...
Gostei de conhecer os recantos doces e bons da tua infância, da tua vida crescendo contigo, ao som agradável destes momentos e destas recordações. Porque de vez em quando devemos abrir esta nossa caixinha de recordações e deixá-la vibrar entre os traços da memória e do que temos hoje em mãos...no nosso CArpe Diem. Grande desafio superado com uma Grande destreza! :))))

Beijo bem grande também...com resposta também lá na Teia.

Susana Júlio disse...

Olha, já tenho o álbum novo dos Portishead... ;P
Estranha-se e depois entranha-se. O single chama-se Machine Gun. Mas na teia Negra já lá tenho a tocar outro tema novo que também gosto.

Álbum deliciosamente íntimo!

muguet disse...

aiiiii linda, que me esqueci do Bolero de Ravel... não sei como fui capaz...
música mais vibrante, lá em casa. punha todos, mas todos, aos saltos...
volto mais logo, que agora acabei de chegar e tenho de ir tomar banho para sair...coisas mais que inadiáveis me esperam...há quase um ano... depois conto :) (mais particularmente;))

Susana Júlio disse...

Estou a ver que o concerto trouxe ainda mais energias! ;)

Porcelain disse...

Eh, eh, eh, a vossa conversa está maravilhosa... que absoluta delícia!! Eu também adoro música clássica, de todas as formas e feitios e... Gotan Project é algo absolutamente maravilhoso!!!

Quanto à minha modéstia... bem, não te assustes, mas a amostra junta é só o "comecinho" ah, ah, ah, ah, isto é mesmo um problema meu!!!

Olha, querida essa sensação de qu falas... de te sentires viva... tudo o que por aqui se tem passado connosco faz-me sentir assim também... estou muito cansada de mim e das minhas chatices e vocês surgiram na altura perfeita em que eu estava mesmo a precisar de quem me arrancasse da apatia em que eu já estava novamente...

Obrigada minha querida... eu digo o mesmo: obrigada por existires!!!

Falando de Amor disse...

passando pra desejar uma boa noite e parabenizar pelo lindo blog...bjos querida!

Anónimo disse...

Que bom voltar por aqui e , em aromas mil...
Com música e...
permite que use as tuas palavras :)
"Simplesmente fantástico, este exercício de memória, de associação da música à existência."

Momentos felizes desse lado
Bjs,
MJ

impulsos disse...

Assino em baixo tudo o que disseste da nossa querida amiga SU, ela é de facto fantástica!!

As tuas escolhas musicais são coincidentes com algumas das minhas e obviamente que gostei de todas.

O som do violoncelo é realmente encantador... entra pelos ouvidos e desce até à alma, inundando-a de magia!

Deixo-te um mimo que encontrei ali no You Tube... aqui
Beijo

muguet disse...

maria josé, que bom ver-te aqui...
eu tenho andado um cadinho desaparecida, com milhentas coisas para fazer, mas essa sou mesmo eu, a mil à hora.
mas hoje, agora, tenho algum tempinho e preciso de descansar, pelo menos o corpo, por isso vou já, já, passar pelo teu cantinho e por mais alguns que, além de estar a dever umas visitinhas, me dão um prazer enorme :)
que bom que gostaste desta pequenina brincadeira que deu um trabalhão desgraçado ;)
beijo, com sabor a até já :))

muguet disse...

impulsos...a nossa su é realmente impressionante... :))
sabes, foi tão difícil escolher apenas seis músicas, tenho a sensação que deixei tantas de fora...
o violoncelo...que dizer desse instrumento... o céu, vale o céu :))

linda, não consegui abrir o youtube...:(( não vi o teu miminho :((

beijo grande, sabor a miminhos bons mesmo quando não se veem mas se sabem :)

O Profeta disse...

Esta é a alma que voa de um Profeta
Ao encontro do teu sentimento
Este é o sal de alva espuma
Que te ofereço e diadema de espanto…

Olhos de alma, da tua alma
Quero-os no cais da minha chegada
Espero por ti em manto de ternura
No encontro da minha caminhada


Bom domingo

Mágico beijo

Susana Júlio disse...

Vocês é que são todas impressionantes e lindas! Pessoas genuinamente merecedoras de se conhecer e de se viver com elas da maneira que temos! :))

Beijo bem Grande!

muguet disse...

obrigada profeta, sei que não tarda estamos já no próximo domingo. da forma como o tempo passa é já amanhã ;)

olhos de alma...uiiiiii o que tu foste dizer...

beijo, com sabor a momentos

muguet disse...

és tão linda, su... :DDDDD

Anónimo disse...

és tu com esta música e eu com
http://1011073.imeem.com/music/5j3Wy6Tc/rodrigo_concierto_de_aranjuez/
adoro, encontro uma harmonia sem fim nesta música. este ano tive a dádiva de a ouvir tocar ao vivo no concerto de ano novo