segunda-feira, 11 de agosto de 2008

quantos rebuçados precisas?

“A LOGISTA ARIANA

Estavam do lado de fora da loja de Frau Diller, encostados à parede caiada.
Na boca de Liesel um pedaço de rebuçado.
Nos olhos, o sol.
Apesar das dificuldades, ela ainda conseguia falar e argumentar.

Mais uma conversa entre Rudy e Leisel
"Despacha-te, Saumensch, com essa já são dez."
"Não é nada, são só oito… ainda me faltam duas."
"Bom, então despacha-te. Eu disse-te que devíamos
ter ido buscar uma faca para o partir ao meio…
Vá, foram duas."
"Está bem. Toma, E não o engulas."
"Tenho ar de idiota?"
(Uma pequena pausa)
"Isto é bestial, não é?"
"Se é, Saumensch."

No final de Agosto e do Verão, encontraram um pfenning na rua. Pura excitação.
Estava caído, muito gasto, no meio do lixo, no percurso da roupa para lavar e passar. Uma moeda solitária e corroída.
- Olha-me só para isto!
Rudy precipitou-se sobre ela. Sentiam ferroadas de excitação ao correr para a loja de Frau Diller, sem admitirem sequer que um único pfenning poderia não ser o preço certo. Irromperam pela porta e ficaram diante da lojista ariana, que os olhou com desdém.
- Estou à espera – disse ela. Trazia o cabelo apanhado na nuca e o vestido preto estrangulava-lhe o corpo. A fotografia emoldurada do Führer vigiava a parede.
- Heil Hitler – começou Rudy.
- Heil Hitler – respondeu ela, endireitando-se ainda mais por detrás do balcão. – E tu? – O seu olhar fulminou Liesel, que se apressou a conceder-lhe um Heil Hitler pessoal.
Rudy não demorou a extrair a moeda do bolso e pousou-a firmemente no balcão. Fitou a direito os óculos de Frau Diller e pediu: - Mistura de rebuçados, por favor.
Frau Diller sorriu. Os dentes acotovelavam-se uns aos outros lutando por espaço dentro da sua boca, e a inesperada amabilidade levou Rudy e Liesel a sorrirem igualmente. Não por muito tempo.
Ela curvou-se, procurou um pouco, e reapareceu – Toma – disse ela, atirando um único rebuçado para cima do balcão. - Misturem-no vocês.
Lá fora, eles desembrulharam-no e tentaram parti-lo ao meio, mas o açúcar parecia vidro. Demasiado rijo, mesmo para as presas de Rudy. Portanto, tiveram de ir alternando chupadelas até ele acabar. Dez chupadelas para Rudy. Dez para Liesel. E assim por diante.
- Isto – anunciou Rudy a dada altura, com um sorriso de rebuçado – é que é boa vida – , e Liesel não discordou. Quando acabaram, tinham ambos a boca exageradamente vermelha, e ao encaminharem-se para casa, incitaram-se mutuamente a manter os olhos bem abertos não fossem encontrar outra moeda.
Naturalmente, não encontraram nada. Ninguém tem essa sorte duas vezes num ano, quanto mais numa só tarde.
Ainda assim, de línguas e dentes vermelhos, desceram a Rua Himmel perscrutando alegremente o solo à medida que avançavam.
O dia fora formidável, e a Alemanha nazi era um lugar maravilhoso.”

in A Rapariga Que Roubava Livros, Markus Zusak


Este é o livro que estou a ler… narrado pela Morte ao longo de uma cena igual a tantas outras na Alemanha nazi aquando do genocídio judeu. É uma perspectiva diferente, original e engraçada, se é que algo no meio deste horror pode ser engraçado.

Este capítulo tocou-me de uma forma diferente do resto das páginas do livro…

De quantos rebuçados precisamos para sermos felizes?

No meio de uma pobreza extrema, de um campo de batalha levado ao limite, de uma tortura psicológica, emocional e física, estes dois melhores amigos, pré-adolescentes, encontram a felicidade mais autêntica na sorte, na partilha, às chupadelas, de um rebuçado!

Como somos egoístas, parvos e estúpidos, nós, gente moderna e culta, sensível e desenvolvida…como somos idiotas!!!

Nós, que fazemos a nossa felicidade depender do plasma topo de gama, das sapatilhas XPTO, do carro reluzente, da casa tamanho XL ou da cor dos olhos do/a namorado/a, ou ainda da existência de um ou uma... Que ficamos tristes quando alguém não nos liga, que enraivecemos quando alguém não arranca no sinal verde, que deprimimos quando o nosso pilim não chega para comprar mais um bibelot para ornamentar a nossa vida...

Quando vamos entender que a nossa felicidade não depende nem do dinheiro, nem dos amores, nem da beleza física, nem da quantidade de amigos…
Quando vamos entender que a nossa felicidade depende exclusivamente de nós mesmos???

É verdade, já sei o que vão dizer…o dinheiro ajuda, o amor também e a beleza idem aspas…mas por favor, vamos pôr os pés na terra de uma vez por todas!!

Há um mundo inteiro de tesouros interiores, que a maior parte das vezes nem nos damos ao trabalho de procurar, quanto mais de os ver, mesmo quando estão debaixo dos nossos narizes!

Por amor a nós próprios…ESTÁ NA HORA DE SERMOS FELIZES!!!

Beijos, espalhados pelo mundo fora, para todos os que se amam a si próprios…e para os outros, beijos ainda maiores, com a esperança de que se venham a descobrir…

4 comentários:

1/4 de Fada disse...

Já me falaram neste livro algumas vezes e tu reacendeste a vontade de o ler... Vai para a lista.

Cruztáceo disse...

Nem mais!

Unknown disse...

A felicidade pode muito bem advir de coisas tão simples!

Este teu post é muito real e um momento de "REFLEXÃO" para quem a felicidade só pode acontecer se tivermos tudo...Mesmo que os outros não tenham nada...

Bjnhs

ZezinhoMota

Carla disse...

não consegui comentar lá em cima, mas era só para te dizer que vou daqui com um sorriso
beijos